sexta-feira, 30 de julho de 2010

Metendo os pés pelas mãos na América do Sul...

Prezados leitores,

Ao contrário de outras poucas vezes em que apenas postei artigos, sem comentários pessoais de minha parte, hoje posto somente minhas considerações sobre o (mais novo) litígio entre Colõmbia e Venezuela, que veio à tona nos últimos dias, e, o mais importante, a participação brasileira nos esforços para dirimir a controvérsia. Segue.

Nesta semana a diplomacia brasileira parece ter tido uma boa dose de realismo na América do Sul. Depois de oferecer seus bons ofícios, e ter sido dispensado, para mediar a contenda entre Colômbia e Venezuela, o Brasil tenta resolver o caso nos marcos da União Sul-Americana de Nações (UNASUL), em detrimento da Organização dos Estados Americanos (OEA), onde os Estados Unidos certamente atuariam com peso decisivo em um eventual parecer final.
O fato é que, como o próprio Clodoaldo Bueno – um dos melhores historiadores de política exterior do Brasil – já declarou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no último dia 29 de julho, o Brasil se aproximou tanto da Venezuela, que “a Unasul ameaça ser mais um projeto de integração sul-americana a cair na irrelevância", pois há a percepção dentro do próprio bloco de que existe uma polarização pró-chavista. Ora, se os colombianos sentem que haverá parcialidade no trato da questão, é óbvio que tentarão resolver o litígio em outra instância.
A chancelaria colombiana já deixou transparecer que, entre os doze países que compõem a UNASUL, somente Peru e Chile estão próximos da imparcialidade desejada para tratar o caso. É possível então que o Brasil mais uma vez não consiga exercer papel relevante na resolução de conflitos em sua área de influência direta, o que aumenta o tom das críticas sobre uma eventual “megalomania” na política externa do presidente Lula – exemplos dados pelos críticos são as negociações nucleares com o Irã, a tentativa de contribuir para a paz entre palestinos e israelenses, o caso hondurenho, entre outros.
A verdade é que o presidente Lula, em mais uma de suas precárias improvisações, pisou na bola ao dizer que o conflito entre Colômbia e Venezuela era somente “verbal” – o que foi deplorado por Álvaro Uribe -, já havendo dito anteriormente que as Farc são um problema da Colômbia. Sim, Sr. Presidente, as Farc são problema colombiano desde que estejam em território daquele país. A partir do momento em que há evidências de que aquele grupo criminoso se infiltrou em outro país para melhor maquinar suas barbáries e práticas espúrias no território colombiano, o problema transcende suas fronteiras. E o pior é saber que há suspeitas de leniência por parte do governo venezuelano para com tais criminosos dentro de seu próprio território! Aí, Sr. Presidente, pode até virar caso de justiça internacional!
Alguns absurdos são claros do lado venezuelano: exemplo cabal é exigir que os colombianos reconheçam os guerrilheiros, assassinos e traficantes das Farc como “grupo beligerante”, ao invés de “grupo terrorista”. Seria como se exigir do Brasil que reconhecesse o Comando Vermelho ou o PCC como “grupos reivindicantes do direito à livre iniciativa” ao contrário de organizações criminosas organizadas. Isso não existe!
O fato é que a diplomacia brasileira terá de trabalhar bastante, e de forma imparcial, se quiser de fato excluir a apreciação do caso pela OEA – o que implicaria maior influência norte-americana no caso. Caso contrário, ficará evidente a incapacidade da atual diplomacia de resolver os conflitos – tecnicamente muito mais simples do que o caso Israel-Palestina, por exemplo - em nossa esfera de atuação mais imediata, dando razão à voz dos críticos da atual política externa.

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