US, stop acting as guardian of human rights
By Huang Xiangyang
From China Daily
March, 12th, 2010
Anyone with an IQ above 70 could see the folly in Washington for keeping up with the annual practice of pointing fingers at the alleged human rights misdeeds in every country and region the world over except itself.
Instead of narrowing differences and improving understanding, the US Human Rights Report serves to do the opposite.
China sees it as a game of "name-and-shame" that sparks only bitter bickering rather than meaningful dialogue. As in previous years, shortly after Washington released its report on March 11, Beijing issued its own version rapping the US for its "rampant human rights abuses". The two countries' views on human rights run like parallel lines that would never cross.
The motives behind Uncle Sam's uninvited show of chivalry in helping nations check their human rights records may not be all ill-intended. It is in the blood of Americans to play the hero. Like the comic figure Popeye the sailor, the US -- blessed with "muscular forearms" of unrivaled military and economic prowess -- believes it is obliged by moral righteousness to use its "superhuman strength" to solve all problems faced by mankind.
The mindset is best reflected in Hollywood blockbusters such as "Independence Day." For some US politicians, it is not total science fiction for a US leader to one day designate the Fourth of July as the world's common day for celebration after triumphing over whatever the US perceives as evils. The sense of moral supremacy makes it natural for Washington to assume the self-designated role as guardian of human rights.
The Chinese culture favors a "mind-your-own business" attitude and believes in the wisdom of, "Do not do undo others what you would not want done undo you." It also lays a lot of emphasis on the force of role modeling, which people find it hard to get from the US. "At least 100,000 civilians have died in Iraq since the US invasion -- and you are lecturing us on human rights?" some would contest.
The Chinese could not get the logic behind Washington's refusal to engage in reporting on human rights within the United States. If the State Department thinks such a report might be viewed as governmental propaganda by US citizens and thus lack credibility, how could it be sure people in other countries would not think alike?
All these, in addition to the lack of the concept of rights in traditional Chinese thought, as well as the humiliation China suffered from Western powers in recent history and sensitivity to national sovereignty, make human rights a touchy and sometimes inflammable issue in Sino-US relations that must be handled with care.
Like in any other country, the human-rights situation in China is far from perfect. If one is bent on digging into the dark side of this vast country, he could find all kinds of examples -- police brutality, judicial injustice and widespread infringement of migrant workers' rights -- to amplify a perception of China as a major human rights violator, "an authoritarian state" with "poor and worsening" human rights, as described in the latest US report.
Indeed, there is much room for improvement of human rights in China. Premier Wen Jiabao has repeatedly pledged that the government will work to "make people live with greater dignity". What the country needs is constructive discussion and encouragement for any progress it makes in regard of human rights. A confrontational approach and condescending attitude go only a very little way.
In human rights, China can learn from the US. But Washington can't expect to have a grateful audience while randomly passing on moral judgment on others as savior of the world. No way!
Meus comentários:
Temos no artigo de Huang Xiangyang duas constatações evidentes: a primeira, a fadiga – muito provavelmente global – da pax americana, que há algum tempo se encontra em seus paroxismos; a segunda, o embate que vem ocupando os internacionalistas da área de direitos humanos sobre a universalização e a relativização dos direitos humanos.
O relatório do Departamento de Estado norte-americano sobre direitos humanos trata-se de um documento anual no qual o governo norte-americano aponta violações aos direitos humanos em quase 200 países. O documento, de uma forma geral, não inventa nenhuma mentira – no caso do Brasil, por exemplo, evidencia os maus tratos em penitenciárias e as execuções ilegais realizadas por policiais militares, entre outras coisas -, mas coloca os EUA como bastião global na defesa dos direitos humanos, o que desagrada a muita gente. Para os críticos, o relatório não passa de uma dissimulação norte-americana, haja vista a carnificina de civis inocentes no Iraque e no Afeganistão, resultado da ação dos EUA e de seus aliados da OTAN em busca de terroristas infiltrados naqueles territórios.
Os chineses, que não concordam com a visão anglo-saxônica do que de fato são direitos humanos – embora não neguem falhas do país no assunto -, preferem silenciar e não fazer juízo de valor sobre a matéria nos diferentes países, adotando uma postura bastante próxima à brasileira, alegando “não-interferência em assuntos internos”.
Esse debate sobre o que é realmente universal e o que é regional não é recente, mas ainda inconcluso, por ser temática espinhosa e que envolve a discussão de práticas culturais milenares, como, por exemplo, a brutal e medieval mutilação do clitóris de meninas em regiões da África e do Oriente Médio.
É possível, porém, esboçar um conjunto de direitos universais que possa nortear as mais diferentes nações a proporcionar a seus cidadãos uma vida mais digna, livre e prazerosa política e socialmente, sobretudo. Esse foi o objetivo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, documento básico da Organização das Nações Unidas assinado por todos os membros da entidade. A despeito de um documento elaborado por uma organização multilateral de alcance global, como é o caso da ONU, a matéria é antiga e o Bill of Rights, de 1689, é certamente uma declaração pioneira por parte dos ingleses. Mais tarde, as revoluções francesa e americana solidificaram o que ficou conhecido como a primeira geração dos direitos humanos, quais sejam a proteção à vida e o direito à liberdade, os direitos políticos e civis. A revolução industrial e a revolução russa contribuíram com a segunda geração dos direitos, os direitos sociais. Por fim, a onda de descolonização nos anos 1960 resultou no que os estudiosos do assunto afirmam ser a terceira geração dos direitos, abarcando o direito ao desenvolvimento econômico, a um meio-ambiente adequado, à paz, entre outros.
Para Cançado Trindade, eminente jurista brasileiro que ocupa hoje uma das 15 cadeiras da Corte Internacional de Justiça, em Haia, as três gerações são indivisíveis. Flávia Piovesan, jurista brasileira também ocupada dos debates sobre a matéria, afirma – acertadamente, na opinião deste blogueiro - que o conflito entre universalistas e relativistas só vai dar lugar a um consenso quando a “ideia de clash of civilizations transitar para a ideia de dialogue among civilizations”. E é exatamente esse diálogo que a atual política externa brasileira parece estar empenhada em defender, uma vez que pressões políticas e embargos econômicos se mostraram infrutíferos no passado e piorado a situação da população sob o domínio de regimes considerados contrários aos princípios universais dos direitos humanos. É necessário, contudo, não atentar contra o bom senso e contra a inteligência alheia, fazendo analogias descabidas como aquela feita pelo presidente Lula sobre presos comuns e políticos. Por último, é possível dizer que o Brasil não deve buscar ser o super-herói dos direitos humanos, como o artigo do diário chinês acusa os EUA, com seus ideais ocidentais diferentes daqueles do país asiático. A política externa brasileira deve procurar aproximar as partes contendoras, visando a um consenso entre elas e contribuindo para o bem-estar das populações que, ou sofrem com resoluções tirânicas locais, ou padecem de recursos externos embargados por sanções impostas alhures.
Um espaço virtual dedicado a debater relações internacionais, política exterior do Brasil e demais acontecimentos políticos no País. Objetiva mostrar de maneira apartidária questões nacionais e internacionais que podem influenciar o cotidiano popular, bem como evidenciar acontecimentos caros a nós brasileiros.
domingo, 21 de março de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
O bobo, a corte e os palhaços
"Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade".
Luís Inácio Lula da Silva, presidente da República Federativa do Brasil.
O infeliz comentário de Lula causa indignação em função de sua tamanha estupidez e inconveniência. Não é necessário dizer mais nada: a estapafúrdia comparação do presidente Lula fala por si mesma. Seu escárnio pela democracia, a única coisa demonstrada em seu precário improviso, faz-nos sentir palhaços.
Luís Inácio Lula da Silva, presidente da República Federativa do Brasil.
O infeliz comentário de Lula causa indignação em função de sua tamanha estupidez e inconveniência. Não é necessário dizer mais nada: a estapafúrdia comparação do presidente Lula fala por si mesma. Seu escárnio pela democracia, a única coisa demonstrada em seu precário improviso, faz-nos sentir palhaços.
domingo, 7 de março de 2010
Avanços sociais e preocupações econômicas
Aqui vai mais um post sem comentários pessoais de minha parte. Uma vez mais, gostaria apenas de divulgar um artigo interessante, escrito agora pelo ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso.
Postarei apenas uma parte do texto, por não objetivar aqui me perder em divagações político-partidárias ou em assuntos que não pertencem à matéria de análise deste blog. Todavia, aqueles que se interessarem pelo completo conteúdo do artigo podem encontrá-lo no jornal Estado de S. Paulo deste domingo, 07 de março de 2010, sob o título de "A hora é agora".
"(...)
Os avanços sociais obtidos pelos últimos governos se deram nos marcos da Constituição de 1988. Incluem-se aí a “universalização” do acesso aos serviços de saúde (via SUS) e à escola fundamental (via Fundef), a cobertura assistencial a idosos e deficientes (via Loas), bem como o maior acesso a terra (via Programa de Reforma Agrária). Além disso, a política continuada de aumento real do salário mínimo a partir de 1994, a extensão de programas sociais a camadas excluídas e a difusão de mecanismos de transferência direta de renda (as bolsas), melhoraram as condições de vida e ampliaram o mercado interno. Tudo isso precisa ser mantido. Caberá ao novo governo reduzir os desperdícios e oferecer serviços de melhor qualidade, melhor avaliados e com menor clientelismo.
Não se pode elidir uma questão difícil: a expansão dos impostos sustentou os programas sociais. Atingiu-se um limite que, se ultrapassado, prejudicará o crescimento econômico. É ilusão pensar que um país possa crescer indefinidamente puxado pelo gasto público financiado por uma carga tributária cada vez maior e pelo consumo privado. Falta investimento, sobretudo em infraestrutura, e falta poupança doméstica, principalmente pública, para financiá-lo. Maior poupança pública não virá de maior tributação. Ao contrário, é preciso começar a reduzir a carga tributária, sobretudo os impostos que recaem sobre a folha de pagamentos, para gerar mais empregos. Para investir mais, tributar menos e dispor de melhor oferta de serviços sociais, não há alternativa senão conter o mau crescimento do gasto. Isso permitirá a redução das taxas de juros e o aumento da poupança pública, como condição para aumentar a taxa de investimento na economia. Sem isso, cedo ou tarde, se recolocarão os impasses no balanço de pagamentos, com a deterioração já perceptível das contas em transações correntes, e na dívida pública, que em termos brutos já ultrapassa 70% do PIB.
(...)"
Fernando Henrique Cardoso
Postarei apenas uma parte do texto, por não objetivar aqui me perder em divagações político-partidárias ou em assuntos que não pertencem à matéria de análise deste blog. Todavia, aqueles que se interessarem pelo completo conteúdo do artigo podem encontrá-lo no jornal Estado de S. Paulo deste domingo, 07 de março de 2010, sob o título de "A hora é agora".
"(...)
Os avanços sociais obtidos pelos últimos governos se deram nos marcos da Constituição de 1988. Incluem-se aí a “universalização” do acesso aos serviços de saúde (via SUS) e à escola fundamental (via Fundef), a cobertura assistencial a idosos e deficientes (via Loas), bem como o maior acesso a terra (via Programa de Reforma Agrária). Além disso, a política continuada de aumento real do salário mínimo a partir de 1994, a extensão de programas sociais a camadas excluídas e a difusão de mecanismos de transferência direta de renda (as bolsas), melhoraram as condições de vida e ampliaram o mercado interno. Tudo isso precisa ser mantido. Caberá ao novo governo reduzir os desperdícios e oferecer serviços de melhor qualidade, melhor avaliados e com menor clientelismo.
Não se pode elidir uma questão difícil: a expansão dos impostos sustentou os programas sociais. Atingiu-se um limite que, se ultrapassado, prejudicará o crescimento econômico. É ilusão pensar que um país possa crescer indefinidamente puxado pelo gasto público financiado por uma carga tributária cada vez maior e pelo consumo privado. Falta investimento, sobretudo em infraestrutura, e falta poupança doméstica, principalmente pública, para financiá-lo. Maior poupança pública não virá de maior tributação. Ao contrário, é preciso começar a reduzir a carga tributária, sobretudo os impostos que recaem sobre a folha de pagamentos, para gerar mais empregos. Para investir mais, tributar menos e dispor de melhor oferta de serviços sociais, não há alternativa senão conter o mau crescimento do gasto. Isso permitirá a redução das taxas de juros e o aumento da poupança pública, como condição para aumentar a taxa de investimento na economia. Sem isso, cedo ou tarde, se recolocarão os impasses no balanço de pagamentos, com a deterioração já perceptível das contas em transações correntes, e na dívida pública, que em termos brutos já ultrapassa 70% do PIB.
(...)"
Fernando Henrique Cardoso
sábado, 6 de março de 2010
Sobre a reivenção da roda e propaganda política
Este post não terá comentários de minha parte. Gostaria somente de divulgar o artigo do engenheiro, matemático, administrador, economista e pesquisador do IPEA, Armando Castelar Pinheiro, que discorre, de forma sucinta, quais são as reais rupturas e continuidades do governo Lula com relação ao governo FHC. Infelizmente, a propaganda direcionada às massas prevalece sobre dissertações sérias, e boa parte da população acredita que é possível transformar um país em oito anos, esquecendo-se da verdadeira mudança de rumo colocada em prática pelo País ainda no governo Itamar, em 1994. Decerto seria possível dizer que a maturação desse processo se dá em 1999/2000, com a desvalorização cambial e sua flutuação, a instituição do regime de metas de inflação e a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, estabelecendo um novo paradigma na administração pública brasileira. Deixo a palavra para Armando Castelar, que sabe empregá-la melhor do que este blogueiro.
Veículo: Valor Econômico
Data: 05/03/2010
A grande transformação
A Grande Transformação é o título da primeira seção do documento com as diretrizes de um eventual governo Dilma Rousseff. A expressão não se refere ao que fazer no futuro, mas à visão do que ocorreu no atual governo. É um documento político, sendo natural que apresente uma leitura engajada do passado e um amplo rol de boas intenções. Não seria razoável dele exigir a isenção e objetividade que se poderia esperar, por exemplo, de uma análise acadêmica. Isso posto, porém, há que considerar que nele estão as linhas mestras do que pode vir a ser o próximo governo. Cabe, portanto, discuti-lo com alguma profundidade, como aliás se deve fazer com os projetos de todos os candidatos.
O documento cobre áreas tão diversas como crescimento econômico, políticas sociais, reforma agrária, direitos de minorias etc. Algumas propostas, como o controle dos meios de comunicação, que remete à situação na Venezuela, certamente gerarão polêmica. Numa leitura seletiva, há pelo menos outras quatro questões que também merecem mais debate.
Primeiro, a interpretação de que o atual governo foi de ruptura. O Brasil vem se transformando há duas décadas, pela soma das mais variadas reformas. A grande transformação do atual governo não se deu, porém, nas políticas adotadas, mas na passagem de ser "contra tudo isso que está aí" - o PT se opôs, por exemplo, ao Plano Real, ao Fundef e ao Proer - para uma postura de defesa dessas políticas. Isso não é uma crítica. Como colocado pelo presidente Lula ("Estado de S. Paulo", 19/02/2010), pior teria sido insistir na posição anterior, sendo ela inviável.
Assim, apesar de o governo ter introduzido algumas inovações importantes, como o ProUni e o Minha Casa, Minha Vida, sua tônica principal foi a de reforçar programas e políticas herdados de administrações anteriores. A política macroeconômica é o caso mais notório, mas não o único: o Bolsa Família saiu do Bolsa Escola; o Fundeb do Fundef etc. Enquanto isso, programas como o Fome Zero e o Primeiro Emprego eram deixados pelo caminho.
Ao manter o coração das políticas que herdou, não reverter medidas como a abertura comercial e a privatização, e até avançar com outras reformas, como a da previdência dos funcionários públicos, o atual governo surpreendeu os investidores, mostrando que essas políticas independiam do governo do momento. Junto com o cenário externo favorável, até meados de 2008, essa surpresa positiva foi a grande alavanca do bom desempenho econômico do Brasil em 2004-10. É importante que essa postura seja mantida na próxima administração.
O documento destaca a intenção de ampliar a intervenção do Estado na economia, inclusive via seleção de ganhadores, na linha das políticas adotadas no pós-crise, como a ininterrupta expansão do crédito público e o uso de subsídios para promover a concentração setorial (e salvar empresas quebradas).
Na mesma toada, ele realça "a saúde de nosso sistema bancário, especialmente público", que serviu de anteparo à crise de 2008. Mas não menciona que essa saúde resultou do saneamento realizado pelo governo anterior, ao custo de muitos bilhões de reais. Foi exatamente a concessão de subsídios a segmentos econômicos influentes que virtualmente quebrou essas instituições. Mais do que precisão histórica, essa lembrança deveria servir de alerta para o risco de se repetir erros pretéritos.
Além de regressivas, onerosas para o erário e prejudiciais aos consumidores, essas iniciativas contrastam com o padrão observado até a primeira metade do atual mandato presidencial, que enfatizou a atração do investimento privado como resposta à dificuldade do governo de expandir a infraestrutura, por falta de recursos e restrições processuais (Lei de Licitações). Um exemplo é a privatização de rodovias federais. Em especial, essa diretriz contrasta com a tendência global de atrair a iniciativa privada para realizar atividades operacionais em serviços sob responsabilidade do Estado.
A nova fronteira na relação Estado-setor privado não está, portanto, no uso da privatização como alavanca do investimento, mas na parceria público privada na busca de melhorias na provisão de serviços públicos como saúde, educação, segurança etc. Destacam-se, nesse caso, o foco tanto na maior capacidade organizacional e de gestão do setor privado, como nas parcerias com entidades sem fins lucrativos. O sucesso desse modelo em nível subnacional forçará uma discussão sobre seu uso em nível federal, como já tentou, sem sucesso, o atual ministro da Saúde.
Infraestrutura é outro tema recorrente no documento. O baixo investimento nessa área cria o risco de que nosso crescimento seja restrito por falta de energia ou pelo congestionamento de estradas e portos. Em 2003/07, o Brasil investiu apenas 2% do PIB em infraestrutura, contra 2,8% em 2001/02 e os cerca de 5% do PIB que se estima ser necessário investir. O documento promete inversões em hidrelétricas, rodovias, ferrovias, portos, armazéns etc. Mas ele também traz o compromisso de ampliar significativamente o gasto corrente. Qual a prioridade? Como reverter a tendência de sacrificar o investimento público mesmo com o aumento vertiginoso da carga tributária?
O documento pouco fala da educação básica, apesar de nossas grandes carências nessa área, como demonstram as avaliações internacionais. O governo federal teve historicamente um papel importante nessa área, como na administração anterior, que criou o Fundef, universalizou o ensino fundamental, e institui um sofisticado sistema de avaliação. O Fundeb foi uma medida importante, mas o desafio da melhoria da qualidade continua posto, sem que se conheçam as propostas de como superá-lo. O atual governo privilegiou a educação superior, dando comparativamente menos atenção à educação básica. Pode-se esperar mudanças nessa abordagem?
É pouco provável que os candidatos competitivos mudem o coração da política econômica, ainda que haja gradações importantes entre eles. Mas agora é preciso ir além da não-mudança. É hora de propor e dizer como implementar as novas transformações que vão permitir ao país continuar mudando para melhor.
Crédito: Armando Castelar Pinheiro
Veículo: Valor Econômico
Data: 05/03/2010
A grande transformação
A Grande Transformação é o título da primeira seção do documento com as diretrizes de um eventual governo Dilma Rousseff. A expressão não se refere ao que fazer no futuro, mas à visão do que ocorreu no atual governo. É um documento político, sendo natural que apresente uma leitura engajada do passado e um amplo rol de boas intenções. Não seria razoável dele exigir a isenção e objetividade que se poderia esperar, por exemplo, de uma análise acadêmica. Isso posto, porém, há que considerar que nele estão as linhas mestras do que pode vir a ser o próximo governo. Cabe, portanto, discuti-lo com alguma profundidade, como aliás se deve fazer com os projetos de todos os candidatos.
O documento cobre áreas tão diversas como crescimento econômico, políticas sociais, reforma agrária, direitos de minorias etc. Algumas propostas, como o controle dos meios de comunicação, que remete à situação na Venezuela, certamente gerarão polêmica. Numa leitura seletiva, há pelo menos outras quatro questões que também merecem mais debate.
Primeiro, a interpretação de que o atual governo foi de ruptura. O Brasil vem se transformando há duas décadas, pela soma das mais variadas reformas. A grande transformação do atual governo não se deu, porém, nas políticas adotadas, mas na passagem de ser "contra tudo isso que está aí" - o PT se opôs, por exemplo, ao Plano Real, ao Fundef e ao Proer - para uma postura de defesa dessas políticas. Isso não é uma crítica. Como colocado pelo presidente Lula ("Estado de S. Paulo", 19/02/2010), pior teria sido insistir na posição anterior, sendo ela inviável.
Assim, apesar de o governo ter introduzido algumas inovações importantes, como o ProUni e o Minha Casa, Minha Vida, sua tônica principal foi a de reforçar programas e políticas herdados de administrações anteriores. A política macroeconômica é o caso mais notório, mas não o único: o Bolsa Família saiu do Bolsa Escola; o Fundeb do Fundef etc. Enquanto isso, programas como o Fome Zero e o Primeiro Emprego eram deixados pelo caminho.
Ao manter o coração das políticas que herdou, não reverter medidas como a abertura comercial e a privatização, e até avançar com outras reformas, como a da previdência dos funcionários públicos, o atual governo surpreendeu os investidores, mostrando que essas políticas independiam do governo do momento. Junto com o cenário externo favorável, até meados de 2008, essa surpresa positiva foi a grande alavanca do bom desempenho econômico do Brasil em 2004-10. É importante que essa postura seja mantida na próxima administração.
O documento destaca a intenção de ampliar a intervenção do Estado na economia, inclusive via seleção de ganhadores, na linha das políticas adotadas no pós-crise, como a ininterrupta expansão do crédito público e o uso de subsídios para promover a concentração setorial (e salvar empresas quebradas).
Na mesma toada, ele realça "a saúde de nosso sistema bancário, especialmente público", que serviu de anteparo à crise de 2008. Mas não menciona que essa saúde resultou do saneamento realizado pelo governo anterior, ao custo de muitos bilhões de reais. Foi exatamente a concessão de subsídios a segmentos econômicos influentes que virtualmente quebrou essas instituições. Mais do que precisão histórica, essa lembrança deveria servir de alerta para o risco de se repetir erros pretéritos.
Além de regressivas, onerosas para o erário e prejudiciais aos consumidores, essas iniciativas contrastam com o padrão observado até a primeira metade do atual mandato presidencial, que enfatizou a atração do investimento privado como resposta à dificuldade do governo de expandir a infraestrutura, por falta de recursos e restrições processuais (Lei de Licitações). Um exemplo é a privatização de rodovias federais. Em especial, essa diretriz contrasta com a tendência global de atrair a iniciativa privada para realizar atividades operacionais em serviços sob responsabilidade do Estado.
A nova fronteira na relação Estado-setor privado não está, portanto, no uso da privatização como alavanca do investimento, mas na parceria público privada na busca de melhorias na provisão de serviços públicos como saúde, educação, segurança etc. Destacam-se, nesse caso, o foco tanto na maior capacidade organizacional e de gestão do setor privado, como nas parcerias com entidades sem fins lucrativos. O sucesso desse modelo em nível subnacional forçará uma discussão sobre seu uso em nível federal, como já tentou, sem sucesso, o atual ministro da Saúde.
Infraestrutura é outro tema recorrente no documento. O baixo investimento nessa área cria o risco de que nosso crescimento seja restrito por falta de energia ou pelo congestionamento de estradas e portos. Em 2003/07, o Brasil investiu apenas 2% do PIB em infraestrutura, contra 2,8% em 2001/02 e os cerca de 5% do PIB que se estima ser necessário investir. O documento promete inversões em hidrelétricas, rodovias, ferrovias, portos, armazéns etc. Mas ele também traz o compromisso de ampliar significativamente o gasto corrente. Qual a prioridade? Como reverter a tendência de sacrificar o investimento público mesmo com o aumento vertiginoso da carga tributária?
O documento pouco fala da educação básica, apesar de nossas grandes carências nessa área, como demonstram as avaliações internacionais. O governo federal teve historicamente um papel importante nessa área, como na administração anterior, que criou o Fundef, universalizou o ensino fundamental, e institui um sofisticado sistema de avaliação. O Fundeb foi uma medida importante, mas o desafio da melhoria da qualidade continua posto, sem que se conheçam as propostas de como superá-lo. O atual governo privilegiou a educação superior, dando comparativamente menos atenção à educação básica. Pode-se esperar mudanças nessa abordagem?
É pouco provável que os candidatos competitivos mudem o coração da política econômica, ainda que haja gradações importantes entre eles. Mas agora é preciso ir além da não-mudança. É hora de propor e dizer como implementar as novas transformações que vão permitir ao país continuar mudando para melhor.
Crédito: Armando Castelar Pinheiro
Assinar:
Postagens (Atom)