domingo, 14 de julho de 2013

Reativação do blog!

Reativando o blog... escrever é preciso... a gente se vê por aqui!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Aquela mesma velha novidade...

O artigo a seguir será postado sem comentários de minha parte. Trata-se de um texto do Embaixador Marcos Castrioto de Azambuja, já aposentado dos quadros do Itamaraty, mas cuja capacidade de análise dos acontecimentos políticos internacionais permanece sóbria e aguçada. O diplomata escreve sobre a velha novidade bolivariana, que há quase dois séculos permanece acorrentada na ideologia utópica de diversas gerações de políticos latino-americanos - mormente sul-americanos hispânicos.

Os falsos filhos de Bolívar

O Estado de S. Paulo, 09 de agosto de 2010.
Crédito: Marcos de Azambuja

Karl Marx, redivivo, talvez não fosse hoje "marxista". É possível imaginar que Simon Bolívar também não coubesse nem se sentisse confortável em nossos dias no molde de um militante "bolivariano". No dia 17 de dezembro de 1830, em uma casa de fazenda em Santa Marta, morria "El Libertador" - o primeiro, o original, verdadeiramente o único. Embora San Martín, com menores merecimentos, houvesse também sido ungido com igual título, faltava ao sóbrio argentino o sentido de teatro e história e o carisma extraordinário do venezuelano.

Sua última e relutante viagem a caminho do exílio é um estudo em desilusão e amargura. Garcia Marques escreve sobre ela uma de suas melhores narrativas. As cartas finais de Bolívar são o testamento de sua decepção com o futuro que antevia para a América espanhola que havia ajudado a desconstruir e não pudera (ou soubera) reconstruir de acordo com sua grande visão de uma América Latina unida e integrada e - aí residia um dos maiores obstáculos - com ele como seu ditador.

Se voltasse hoje - 180 anos depois - e se visse refém do projeto político de Hugo Chávez, é agradável presumir que o libertador não iria permitir que seu nome, seus ideais e seus grandiosos projetos pudessem ser apropriados, nas novas e inteiramente diversas circunstâncias do começo do século 21, para definir e rotular um projeto que não seria o seu.

Bolívar é, acima de tudo, o herói em sua definição romântica e poderia ter saído da obra de Byron - que, incidentalmente, era um ardente admirador e deu mesmo seu nome ao barco que o levou em sua última viagem pelas costas da Europa.

É também fácil associar Bolívar a Garibaldi, com quem compartilha importantes traços de identidade. Foi um homem de seu tempo e um admirador do Napoleão da primeira fase e a cuja coroação como imperador assistiu em 1804. Não é fácil imaginar um cidadão do mundo formado no espírito de Rousseau, de Voltaire, admirador da revolução americana e do modelo constitucional britânico reduzido ao sectarismo das teses hoje defendidas pelo governo de Caracas.

Há vários Bolívar embrulhados em um só. Há o jovem aristocrata criollo ferozmente anti-espanhol; há o profeta que jura libertar a América com Roma a seus pés; há o homem de ação das várias campanhas militares; há o estadista dos manifestos de Angostura e de Cartagena e há o homem de reflexão da Carta da Jamaica. Há ainda o amante da destemida Manuela Saenz (que ele próprio havia definido como "La libertadora Del Libertador") - ele, o Don Juan de muitas outras escapadas na Nova Granada e em diversos leitos e paragens.

Se Byron era um seu admirador, Marx foi um crítico severo pelo que se depreende do artigo que, sobre Bolívar, escreveu para The New American Encyclopedia em 1858. Para Marx revolução era coisa séria, a ser perseguida com rigor, método e disciplina. O impulsivo caudilho não era, certamente para Marx, o tipo de líder que a revolução reclamava. O que salva Bolívar da vala comum do autoritarismo dos cavalarianos de sua época é exatamente a riqueza de seu mundo interior e as surpresas e os paradoxos do seu espírito.

Não vou levar mais longe este exercício hipotético sobre como o Bolívar histórico teria reagido à apropriação de seu nome para legitimar um suspeito projeto político atual. Alguns dos ingredientes básicos do modelo "bolivariano" de Hugo Chávez não são, certamente, originais e podem ser encontrados em outros movimentos latino-americanos: no justicialismo argentino; no aprismo e nos que trilharam o Sendero Luminoso peruano; nos Montoneros dos pampas e nos Tupamaros uruguaios; nos sandinistas da Nicarágua e nos seguidores de Farabundo Martí ou de José Martí em Salvador e Cuba. A lista pode se alongar e acabaríamos juntando, na busca da recriação de "La Pátria Grande", berço natural dessa latino-americanidade visionária, Bolívar e Ernesto Guevara - este, seguramente, a versão acabada do herói romântico do nosso tempo.

Com algumas diferenças naturais de época ou contexto nacional, muitos dos ingredientes de cada movimento parecem retirados do mesmo bloco de sentimentos populistas, autoritários e socialistas latino-americanos. Dependendo da época, o dragão externo é a Espanha, ou a Inglaterra ou os EUA. Os vilões internos são ou as forças armadas, uma oligarquia corrupta ou latifundiários brutais. No mais das vezes, todos juntos. É difícil ir contra a retórica "bolivariana". As palavras são sempre candentes; as promessas generosas; os erros do passado sempre odiosos; a exploração dos pobres, cruel e insensível. Como ser contra cada manifesto que traz a promessa de que desta vez a história será diferente?

O grande engano de cada impulso "bolivariano" - de que o "chavismo" é a mais recente versão - é que, em seu nome, se cometem os mesmos erros e se trilha o mesmo caminho de experiências fracassadas anteriores: renova-se a esperança da salvação pela espada e pela inspiração do herói; promete-se mais liberdade futura ao limitar a liberdade atual; insiste-se no desprezo pela construção paciente de um edifício social e econômico onde os erros venham a ser gradualmente corrigidos. Traçam uma linha irreconciliável entre amigos e inimigos e na há espaço para matizes e qualificações. Subestimam e desqualificam os que não estão na mesma onda de fervor e militância.

Sobre o Brasil e nosso lugar nesse grandiloquente esquema, há quase sempre um constrangido silêncio. Desde o início não somos vistos como parte da família a ser reagrupada; nossa opção inicial, monárquica e escravocrata e a consolidação - com a Independência - de nossos imensos espaços e da nossa unidade nos faz alheios ao esforço por reunificação e restauração que animava os principais atores da América espanhola fragmentada.

Não falamos - literal e metaforicamente - a mesma língua. Enquanto eles se insurgiam contra o império distante, o Rio de Janeiro, com a chegada da Côrte portuguesa, passava a ser, nos trópicos, a capital de um império.

O nosso foi um outro caminho. Menos retumbante mas, talvez, mais sensato na busca das formas mais justas e representativas de organização política e social. Tivemos mais sorte que eles e uma dose maior de juízo.

Ao procurar separar Simon Bolívar do projeto de Hugo Chávez devo reconhecer que, em pelo menos um ponto, El Libertador foi um legítimo precursor do que hoje se faz em Caracas. Quis também a presidência vitalícia, da qual acabou afastado pela inexorável força da natureza das coisas.

Seria confortador pensar que, depois de 180 anos de reflexão na quietude do túmulo, Bolívar se tenha convertido ao reconhecimento de que democracia é também alternância das pessoas e dos partidos no poder - o que provoca a oxigenação e a regeneração que só acontecem quando novos atores chegam ao centro do palco.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

“Um triunfo de argumentos racionais”

“PROPOSITION 8 fails to advance any rational basis in singling out gay men and lesbians for denial of a marriage license. Indeed the evidence shows Proposition 8 does nothing more than enshrine in the California constitution the notion that opposite sex couples are superior to same sex couples.”

Dessa forma pode ser resumida a decisão do juiz federal, Vaughn Walker, de derrubar a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia, Estados Unidos. A proibição advém de um plebiscito realizado em 2008 naquele estado norte-americano, em que, após grande campanha de grupos religiosos conservadores, 52% dos votantes aprovaram a chamada Proposta 8, uma emenda constitucional que definiu o casamento como sendo exclusivamente entre homem e mulher.
O juiz, em sua análise, ponderou, como mostra o excerto em inglês, que falta base racional ao se negar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. De fato, nada mais irracional – e inconstitucional - do que violar direitos individuais em função de percepções dogmáticas e medievais acerca do ser humano. Para citar diretamente o jornal britânico The Economist – de onde foi extraído o título deste post -, repito a pergunta que fizeram a seus entrevistados, em 2004: "Why should one set of loving, consenting adults be denied a right that other such adults have and which, if exercised, will do no damage to anyone else?" (Por que um casal de pessoas que se gostam, e que são maiores de idade, deveria ter negado o direito que outras mesmas pessoas têm e que, se exercido, não prejudicará ninguém mais? Tradução livre.) Realmente, não dá pra entender.
Este blogueiro é um liberal na seara política – e em vários aspectos no âmbito econômico também, mas isso não vem ao caso neste momento – e acredita que o indivíduo precede ao Estado. Logo, o Estado não pode cercear os direitos individuais, que são, portanto, anteriores ao conceito de sociedade. Isto não significa que advogo a favor da anarquia legal, de forma alguma. Somente defendo liberdades individuais que não ferem e não prejudicam, de modo algum, terceiros – ainda que estes não partilhem da mesma opinião. Espero que nosso País avance nessa temática – o que já vem ocorrendo, ainda que a passos lentos -, e que a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo seja possível em breve.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ministério da utopia

Segue abaixo artigo do Dr. Demétrio Magnoli sobre uma eventual “utopia ultranacionalista” engendrada por Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurélio Garcia, dois personagens que, embora não façam parte do quadro do Itamaraty, são apontados como regentes da atual política externa do governo Lula - e de um eventual governo Dilma.
Restrinjo-me a dizer, tão-somente, que utopias não me agradam. Há dois motivos básicos para tal desgosto pessoal: elas são factualmente inatingíveis e, como bem lembrou Magnoli ao citar Isaiah Berlin, “é um caminho perigoso, ‘pois, se realmente acreditamos que tal solução é possível, então com certeza nenhum preço será alto demais para obtê-la’”. Basta lembrar a ideologia socialista posta em prática na antiga União Soviética e em alguns países asiáticos, que foi responsável pela carnificina de milhões de pessoas – talvez o regime de Pol Pot no Camboja seja o exemplo mais nefasto -, além de levar a economia dos países que a adotaram à ineficiência e à bancarrota.

Ministério da utopia

O Estado de S. Paulo, 05 de agosto de 2010
Crédito: Demétrio Magnoli

Intelectuais tendem à utopia, pois ela precisa de uma descrição e eles são seus autores. Isaiah Berlin não está entre os filósofos mais célebres precisamente porque é um pensador antiutópico. "As utopias têm o seu valor - nada amplia de forma tão assombrosa os horizontes imaginativos das potencialidades humanas -, mas como guias da conduta elas podem se revelar literalmente fatais", anotou Berlin. As utopias almejam a completa realização de um conjunto de premissas, com a exclusão de todas as outras. É um caminho muito perigoso, "pois, se realmente acreditamos que tal solução é possível, então com certeza nenhum preço será alto demais para obtê-la".

A democracia constitui um sistema político avesso à utopia porque, por definição, rejeita atribuir estatuto de verdade incontestável a qualquer conjunto de premissas ideológicas. Os intelectuais utópicos têm um lugar na democracia - o de instigadores do debate público. Mas o sistema democrático de convivência de ideias contraditórias se estiola quando eles são alçados à posição de sábios oficiais e suas utopias são convertidas em verdades estatais.

Samuel Pinheiro Guimarães, até outro dia secretário-geral do Itamaraty, foi guindado à Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). No novo cargo, elaborou um documento intitulado O Mundo em 2022, ainda em versão preliminar, que circula no governo e no Itamaraty. Trata-se de um delineamento das tendências do sistema internacional, com propostas de políticas estratégicas do Brasil. Dito de modo direto, é a plataforma de uma utopia ultranacionalista, a ser aplicada num hipotético governo de Dilma Rousseff, que colide com os valores e as tradições da democracia brasileira.

Num texto escrito em português claudicante, o intelectual utópico expõe uma doutrina antiamericana que solicita uma curiosa articulação estratégica entre Brasil, Rússia, Índia e China "para reformar o sistema internacional e torná-lo menos arbitrário". Os Brics, acrônimo cunhado no interior de um banco de investimentos, constituem um "bloco" apenas na acepção restrita de que seus integrantes passaram a influenciar a governança econômica global. Eles, porém, não compartilham interesses geopolíticos relevantes - uma evidência clamorosa que escapa por completo à percepção de Guimarães, moldada por um obsessivo antiamericanismo.


Os equívocos teóricos pouco significam, perto das prescrições políticas. Nostálgico do "Brasil-potência" dos tempos de Ernesto Geisel, Guimarães atribui ao Estado os papéis de "estimular o fortalecimento de megaempresas brasileiras (...) para que possam atuar no cenário mundial globalizado" e de conduzir um programa de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de amplas implicações militares. Os significados desta última proposição podem ser entrevistos na passagem em que o autor define o Tratado de Não-Proliferação Nuclear como o "centro" de um processo ameaçador de "concentração de poder militar". A leitura do documento oferece indícios sugestivos para a compreensão da lógica subjacente à aproximação entre Brasil e Irã e à operação diplomática brasileira de cobertura do programa nuclear iraniano.


No programa ultranacionalista, ausências falam tanto quanto presenças. Ao longo de 54 itens, não há nenhuma menção aos direitos humanos. Não é surpreendente: um livro de Samuel Pinheiro Guimarães, publicado em 2006, qualificou a defesa dos "direitos humanos ocidentais" como uma forma de dissimular "com sua linguagem humanitária e altruísta as ações táticas das Grandes Potências em defesa de seus próprios interesses estratégicos". A militância do governo Lula contra a política internacional de direitos humanos - expressa na ONU, em Cuba, no Irã, no Sudão, na China e em tantos outros lugares - não é um fenômeno episódico, mas reflete uma visão de mundo bem sedimentada. Lastimavelmente, as ONGs brasileiras de direitos humanos financiadas pela Fundação Ford trocaram a denúncia de tal militância pela aliança com o governo na difusão da doutrina dos "direitos raciais".

A utopia regressiva de Samuel Pinheiro Guimarães colide com a Constituição, que veta a busca de armas nucleares e situa a promoção dos direitos humanos no alto das prioridades de política externa do Brasil. Se a sua plataforma política aparecesse na forma de artigo, isso não seria um problema - e, talvez, nem mesmo uma fonte de debates interessantes. As coisas mudam de figura quando ela emerge como documento de Estado, produzido num Ministério encarregado de formular as diretrizes estratégicas do País.

O governo Lula exibe, sistematicamente, inclinação a partidarizar o Estado. A contaminação ideológica da política externa é uma dimensão notória dessa inclinação. Há, contudo, um antídoto contra a doença, que é a supervisão parlamentar das diretrizes estratégicas de política externa. Nos EUA, uma nação presidencialista como a nossa, as prioridades e os orçamentos do Departamento de Estado são submetidos ao crivo do poderoso Comitê de Relações Exteriores do Senado, expressão do controle social, bipartidário, sobre uma política de Estado. O Senado brasileiro tem uma Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Entretanto, sua gritante ineficácia, que exprime uma carência quase absoluta de poder real, proporciona ao governo as condições para a continuidade da folia ideológica em curso.

A SAE foi concebida como uma jaula dourada para acomodar (e ridicularizar) Roberto Mangabeira Unger, quando ele aderia ao governo que definira como "o mais corrupto da história". Agora, sob Guimarães, a jaula transforma-se em linha de montagem de uma utopia ultranacionalista que funcionaria como a régua e o compasso da inserção internacional do Brasil. A Nação tem o direito inalienável de se proteger contra o Ministério da Utopia, sujeitando a política externa ao escrutínio democrático dos parlamentares.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Metendo os pés pelas mãos na América do Sul...

Prezados leitores,

Ao contrário de outras poucas vezes em que apenas postei artigos, sem comentários pessoais de minha parte, hoje posto somente minhas considerações sobre o (mais novo) litígio entre Colõmbia e Venezuela, que veio à tona nos últimos dias, e, o mais importante, a participação brasileira nos esforços para dirimir a controvérsia. Segue.

Nesta semana a diplomacia brasileira parece ter tido uma boa dose de realismo na América do Sul. Depois de oferecer seus bons ofícios, e ter sido dispensado, para mediar a contenda entre Colômbia e Venezuela, o Brasil tenta resolver o caso nos marcos da União Sul-Americana de Nações (UNASUL), em detrimento da Organização dos Estados Americanos (OEA), onde os Estados Unidos certamente atuariam com peso decisivo em um eventual parecer final.
O fato é que, como o próprio Clodoaldo Bueno – um dos melhores historiadores de política exterior do Brasil – já declarou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no último dia 29 de julho, o Brasil se aproximou tanto da Venezuela, que “a Unasul ameaça ser mais um projeto de integração sul-americana a cair na irrelevância", pois há a percepção dentro do próprio bloco de que existe uma polarização pró-chavista. Ora, se os colombianos sentem que haverá parcialidade no trato da questão, é óbvio que tentarão resolver o litígio em outra instância.
A chancelaria colombiana já deixou transparecer que, entre os doze países que compõem a UNASUL, somente Peru e Chile estão próximos da imparcialidade desejada para tratar o caso. É possível então que o Brasil mais uma vez não consiga exercer papel relevante na resolução de conflitos em sua área de influência direta, o que aumenta o tom das críticas sobre uma eventual “megalomania” na política externa do presidente Lula – exemplos dados pelos críticos são as negociações nucleares com o Irã, a tentativa de contribuir para a paz entre palestinos e israelenses, o caso hondurenho, entre outros.
A verdade é que o presidente Lula, em mais uma de suas precárias improvisações, pisou na bola ao dizer que o conflito entre Colômbia e Venezuela era somente “verbal” – o que foi deplorado por Álvaro Uribe -, já havendo dito anteriormente que as Farc são um problema da Colômbia. Sim, Sr. Presidente, as Farc são problema colombiano desde que estejam em território daquele país. A partir do momento em que há evidências de que aquele grupo criminoso se infiltrou em outro país para melhor maquinar suas barbáries e práticas espúrias no território colombiano, o problema transcende suas fronteiras. E o pior é saber que há suspeitas de leniência por parte do governo venezuelano para com tais criminosos dentro de seu próprio território! Aí, Sr. Presidente, pode até virar caso de justiça internacional!
Alguns absurdos são claros do lado venezuelano: exemplo cabal é exigir que os colombianos reconheçam os guerrilheiros, assassinos e traficantes das Farc como “grupo beligerante”, ao invés de “grupo terrorista”. Seria como se exigir do Brasil que reconhecesse o Comando Vermelho ou o PCC como “grupos reivindicantes do direito à livre iniciativa” ao contrário de organizações criminosas organizadas. Isso não existe!
O fato é que a diplomacia brasileira terá de trabalhar bastante, e de forma imparcial, se quiser de fato excluir a apreciação do caso pela OEA – o que implicaria maior influência norte-americana no caso. Caso contrário, ficará evidente a incapacidade da atual diplomacia de resolver os conflitos – tecnicamente muito mais simples do que o caso Israel-Palestina, por exemplo - em nossa esfera de atuação mais imediata, dando razão à voz dos críticos da atual política externa.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Brasil perde participação no PIB global

Abaixo estão os dados que demonstram boa parte do sucesso do governo Lula, que é devido, em grande medida, à conjuntura internacional bastante favorável no período 2003-2008. A equação: crescimento dos emergentes - sobretudo da China -, elevando os preços das commodities + liquidez internacional, em parte devido aos petrodólares que inundaram o sistema financeiro com a alta do preço do produto, resultou em uma fase de prosperidade global que não deixou o Brasil de fora. E mesmo com nosso crescimento, acabamos por empobrecermo-nos relativamente ao resto do mundo, como mostra o artigo a seguir.
Nos últimos seis anos e meio, nada mudou na política ecônomica que foi herdada do governo FHC. Já nos últimos 18 meses, é possível perceber uma considerável tendência ao estatismo e aos gastos públicos excessivos para manutenção da máquina pública - além daqueles justificados para a contenção da crise global, iniciada em setembro de 2008.
Infelizmente, não se aproveitou o bom momento da economia e tampouco a grande popularidade do presidente Lula, para fazer reformas necessárias, como a política, a tributária e a previdenciária. Sem tais reformas, o País continuará sendo o pariah entre os emergentes. Para mencionar Delfim Netto, o Brasil vai permanecer a ser um "Engana" - em inglês, ou "Ingana: taxando o contribuinte com a alta carga tributária da Inglaterra, e prestando ao cidadão serviços como os do governo de Gana, na África. Algo tem de mudar, ou a competitividade de nossa economia estará em risco. Segue o texto.

Em 2002, a fatia brasileira no bolo da produção de riqueza mundial era de 2,92%; no fim deste ano deverá ser de 2,90%

O Estado de S. Paulo, 26/07/2010
Crédito: Leandro Modé

A despeito do crescimento mais forte da economia brasileira nos anos recentes, o País perdeu participação no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Em 2002, a fatia era de 2,92%. Ao final deste ano, segundo projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI), deve ser de 2,90%.

É uma diferença pequena, mas, segundo analistas, nada desprezível, levando-se em conta que o Brasil ainda é uma nação emergente. Se não precisa e não consegue crescer como China e Índia, tampouco deveria "se contentar" com um ritmo de país desenvolvido.

Em 2000, a China tinha 7%, a Índia, 4%, e o Brasil, 2,95% do PIB global. Os chineses devem encerrar 2010, segundo o FMI, com 13% e os indianos, com 5%.

"O Brasil não é um país pobre, mas um país de pobres", define o economista Simão Davi Silber, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP). "Um quarto da nossa população economicamente ativa ganha meio salário mínimo ou menos."

Silber estima que a expansão média anual deveria ser de 7% para o Brasil alcançar relativamente rápido uma nova condição de desenvolvimento. "Sete por cento de crescimento ao ano significa dobrar o PIB em uma década. Isso, mais um pesado investimento em educação, mudaria o País."

O PIB nacional avançou, em média, 3,6% ao ano desde o início do governo do presidente Lula, em 2003. É mais do que a média das décadas de 80 (1,7%) e 90 (2,6%), mas menos do que o mundo, que se expandiu 3,7%, em média, entre 2003 e 2009.

Para este ano, a expectativa do FMI é de que o Brasil cresça 7,1%, ante 4,6% do planeta.

Além dos números.

O debate sobre a taxa de crescimento adequada para o País é mais do que mera questão numerológica. Como lembra Silber, no curto prazo, uma expansão de 5% ou 7% pode não fazer tanta diferença. Em prazo mais longo, porém, altera a história de uma nação. "Na década de 50, a renda per capita da Coreia do Sul equivalia a um terço da nossa. Hoje, é quatro vezes maior, porque eles cresceram consistentemente acima do Brasil", observa ele.

A discussão, portanto, desemboca na atual capacidade de expansão do País e no que deve ser feito para aumentá-la. Analistas de mercado financeiro calculam que o chamado PIB potencial (que mede quanto um país pode se expandir sem provocar pressões inflacionárias) está hoje entre 4% e 5%.

Para ir além, diz o professor de economia do Insper Daniel Motta, é preciso elevar a capacidade de produção do País. Para se fazer isso seria necessário diminuir a carga tributária, reduzir a burocracia, baixar a taxa de juros, incentivar o mercado de capitais para que pequenas e médias empresas tenham mais acesso a dinheiro, além de investir pesadamente em infraestrutura e em educação.

"O Brasil só cresceu muito nos últimos anos porque acompanhou a onda mundial, que valorizou as commodities que nós exportamos", critica. Para ele, o País não teria alcançado ritmo semelhante pelas próprias pernas.

O economista Douglas Uemura, da LCA Consultores, discorda. Para ele, o quadro geral, nos últimos anos, "é positivo". "De 2000 para cá, temos apresentado uma expansão sustentada do PIB", comentou Uemura. Apesar disso, ele não nega que o Brasil precisa, por exemplo, melhorar sua produtividade, o que passa pela melhora da educação.

Longo prazo

Para o economista Fábio Silveira, da RC Consultores, o Brasil só ampliará o potencial de crescimento se voltar a fazer "planejamento de longo prazo". "É a política que todos os países bem-sucedidos do mundo adotaram", afirmou.

Silveira defende que a indústria esteja no foco dessas ações. "Não há economia grande como a brasileira que comporte apenas os setores básicos e os serviços. A indústria precisa ter participação importante."

A receita de Silveira é semelhante à de outros especialistas: redução da carga tributária e dos juros e melhora da infraestrutura.

domingo, 25 de julho de 2010

A política externa comum europeia e seu orçamento

Uma das mudanças do Tratado de Lisboa, em vigor desde 1º de janeiro de 2010, concerne à institucionalização da política externa comum, embora cada país continue com suas representações diplomáticas no exterior. Em tempos de vacas magras no velho continente, os contribuintes não devem estar gostando muito da ideia de bancar dois serviços diplomáticos. Afinal de contas, alguém tem de pagar essa conta...

UE prepara um serviço diplomático unificado
O Estado de S. Paulo, 25/07/2010
Crédito: Jamil Chade

Bloco dá primeiro passo para uma política externa comum e cria um departamento de 7 mil funcionários que custará US$ 9 bilhões ao ano

A corte do rei Luis XIV ficaria com inveja do tamanho do corpo diplomático que a Europa se prepara para criar. O primeiro serviço europeu de diplomacia está sendo estabelecido por Bruxelas para unificar sua política externa.

Enquanto o serviço diplomático britânico está cortando 40% de seu orçamento e outros governos enfrentam dificuldades econômicas, a UE anuncia que a nova diplomacia terá um orçamento de US$ 9 bilhões por ano, além de 7 mil funcionários - os EUA gastam anualmente US$ 16,4 bilhões com cerca de 12 mil funcionários.

A nova máquina será lançada em setembro, mas já é alvo de ataques. O sonho da política externa comum sempre mexeu com o humor de muitos países zelosos em abrir mão de sua soberania, mesmo após o fim das barreiras internas e da moeda única.

O Tratado de Lisboa foi um grande passo e, rapidamente, a cúpula da UE já começou a entrevistar candidatos para postos-chave, como embaixador nos EUA, China, Brasil e Japão. As nomeações devem ser anunciadas até setembro.

Se a máquina diplomática está sendo criada, seu conteúdo é frágil. França e Grã-Bretanha divergem da Espanha em relação a como tratar Cuba. Os países do Leste Europeu tem uma relação com os EUA que incomoda alguns tradicionais membros da UE. O Oriente Médio é alvo de várias visões dentro da Europa.

Henry Kissinger, nos anos 70, questionava para quem deveria ligar quando precisasse falar com a Europa. Hoje, o presidente Barack Obama cancelou sua participação em uma cúpula com os europeus alegando que a estrutura de poder dentro do bloco ainda não era clara e a reunião com todos os 27 países seria uma perda de tempo.

Por enquanto, há dois presidentes, José Manuel Barroso e Herman Rompuy, 27 chanceleres e uma chanceler continental, a baronesa Catherine Ashton de Upholland - sem contar os países que assumem a presidência do bloco a cada seis meses.

Os 27 membros da UE já contam com suas respectivas embaixadas pelo mundo, enquanto a Comissão Europeia tem suas delegações. Agora, com a política externa comum exigirá também um corpo diplomático próprio.

Ao criar o serviço de diplomacia continental, Bruxelas garantiu que a estrutura não custaria um centavo a mais do contribuinte, já incomodado com a burocracia do bloco. A promessa era a de que os funcionários viriam da própria estrutura da Comissão Europeia e de diplomatas cedidos pelos governos.

Mal começaram os trabalhos e a chanceler já disse que precisará de um orçamento extra de 55 milhões este ano para pagar funcionários, o que irritou o Comitê de Orçamento do Parlamento Europeu. "Só Papai Noel acreditaria que esse serviço não custaria mais dinheiro", afirmou Inge Grassle, deputada alemã. Ela lembra que, apenas na criação do novo serviço diplomático, foram gastos 65 milhões com a construção dos novos escritórios da UE em Adis-Abeba, na Etiópia, sede da União Africana.

Os custos vão além. Cada um dos 736 deputados europeus terão 20 mil a mais por ano para acompanharem os trabalhos da diplomacia europeia. O novo Departamento de Estado Europeu terá 136 embaixadas da UE pelo mundo, muitas das quais já existem na forma de delegações da Comissão Europeia.

No orçamento de 7 bilhões estão não só os custos com funcionários, mas os gastos com operações de paz, contribuições para entidades internacionais e programas de cooperação. "Estamos conscientes do clima econômico na Europa e da pressão de governos e cidadãos. Não queremos criar um peso a mais para os contribuintes", garantiu a chanceler.

Os eurodeputados, porém, insistem em questionar os custos. Catherine tem um salário de 321 mil por ano. O novo embaixador em Washington ganhará 188 mil por ano. O do Brasil, 147 mil. Além dos custos, os governos nacionais devem começar uma briga de foice para garantir que possam ocupar postos estratégicos.

Para setembro, o bloco promete entrar em um duro debate sobre o orçamento geral para 2011. A proposta da Comissão Europeia é de gastos de 113 bilhões, 6% a mais que em 2010.

PARA ENTENDER

Tratado de Lisboa mudou corpo da UE

Desde 1.º de janeiro, a União Europeia (UE) tem três presidentes: a Bélgica, que assumiu formalmente o cargo rotativo até o fim do ano, o presidente permanente, o belga Herman van Rompuy, e o presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Barroso. Isto sem contar a nova ministra das Relações Exteriores, Catherine Ashton. A complicada arquitetura foi fruto do Tratado de Lisboa, que dá uma maior institucionalização para a Europa, mas não retira os governos nacionais da cena.